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O avançado comércio do Povoado do Moinho

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O povoado do Moinho é um lugar tão avançado, que você não precisa entrar de máscara no comércio. Porque não há comércio! Eu já bati perna por esse Brasil. Já fui em muito interior, vila e sertão. Jamais havia visto uma organização social como a do Moinho, que é um distrito de Alto Paraíso de Goiás (12 km por estrada de terra). Aqui, você compra o bolo da dona Fulana, passa na horta da Sicrana e ela já colhe o que você precisa. O sabão pode comprar na Beltrana.  Aqui, qualquer lugar preenche a cartela do bingo:  》Compre do pequeno.  》Compre de quem faz.  》Consuma orgânicos.  》Opte sempre por opções veganas.  É um vilarejo em que a produção é predominantemente nativa. Mas eles são rápidos, gentis e espertos, na melhor acepção da palavra. Por isso, mesmo quando a gente não pergunta, eles consultam: "quer biscoito vegano ou comum?". Levando em conta que o "comum" é com o máximo de ingredientes orgânicos locais. Não por marketing. Não por uma polític...

Cordisburgo: a terra do realismo fantástico

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Dias após a morte de seu pai, o alicerce da casa de Elane desabou. Logo também se foi o boi de estimação, morador do sítio da família. O bicho esteve prestes a virar churrasco nas mãos do filho mais velho, mas seguiu o conselho amigo da herdeira, que se adiantou na noite anterior e lhe falou no ouvido: “Vê se dá um jeito na sua vida, porque meu irmão quer dar cabo de você”. Amanheceu morto, de causas naturais. Ou (quem sabe?) teria sido uma intervenção extraterrena. Porque foi atrás dos habitantes de outros planetas que esta mulher percorreu na juventude a estrada até a antiga hidrelétrica da cidade, a primeira a gerar luz para a pequena Cordisburgo. Morto o pai, transformou a residência, agora de alicerces renovados, em pousada domiciliar que administra junto com a mãe, Dona Dadá. Os quartos são quase todos destinados aos inúmeros visitantes que penetram o sertão atrás do amor emanado pela obra de Guimarães Rosa, filho mais ilustre daquele “lugar do coração”, como o pomposo nome em l...

Cordisburgo de Guimarães Rosa

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“Ele sabia – para isso qualquer um tinha chance – que Cordisburgo era o lugar mais formoso, devido ao ar e ao céu , e pelo arranjo que Deus caprichara em seus morros e suas vargens; por isso mesmo, lá de primeiro se chamara Vista Alegre … O céu não tinha fim, e as serras se estiraram, sob o esbaldado azul e enormes nuvens oceanosas.” Guimarães Rosa Dizer que Cordisburgo é uma cidade apaixonante chega a ser redundância. Tente sair de lá sem coraçõezinhos orbitando em seu entorno, como nos gibis. Tente absorver o fato de que o brasão do município é um coração, que seu nome literalmente significa Lugar do Coração (cordis= coração, burgo=lugar), que o padroeiro do lugar era São José, mas ao encomendarem um santo para nova igreja, houve um engano: mandaram o Sagrado Coração de Jesus. Podiam pedir um novo, mas ficaram com esse, talvez porque há 100 anos aquele lugar já fosse muito amor. Quando nasceu seu filho mais ilustre, João Guimarães Rosa, em 27 de junho de 1908, Cordisburgo ainda não ...

O dia em que entendi o que é um quilombo

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Na beirada da memória, está a palavra “feliz”: quando pronunciada, me remete à imagem da minha chegada ao Quilombo Carcará, em Potengi, Cariri cearense, no final de 2013. Se encontrei povo mais forte e bem resolvido que os sertanejos cearenses, estes eram os quilombolas de lá. A boa recepção veio pela companhia: estava com Jefferson Bob, o maior defensor cultural que já vi uma cidade ter. Por ele soube que, até que não te entendam como uma ameaça, os quilombolas são arredios, desconfiados. Há poucos anos tinham assumido sua condição de descendentes de escravos e lutavam pela demarcação da terra. Graças ao pai do Bob, que um dia viu na televisão um quilombo e se deu conta de que a população negra que ocupava o espaço mais pobre da região do Carcará – chamada de “favela” pelos vizinhos (muito pouco) mais abastados e de pele mais clara – era um quilombo. Por isso, não pense que foi fácil. Você não chega para um povo que viveu anos escondido, com medo, e diz: “agora acordem para sua condiç...

Santa Tereza, Belo Horizonte: terra do Clube da Esquina

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Gente do mundo todo já baixou em Santa Tereza, na zona leste de Belo Horizonte, pra conhecer o Clube da Esquina, onde Milton Nascimento reuniu amigos em torno de seu talento incomum. Não é de se espantar: sua sede é linda. Tem teatro, sala de ensaios, café e… Opa, pera, nada disso! O clube, fisicamente, não existe e nem nunca existiu. Ele era um palco imaginário. As cadeiras, o chão de concreto da calçada. Os sócios, meninos inquietos que cresciam sob a ditadura. Por isso, é importante calibrar as expectativas: visitar Santa Tereza em busca das memórias do Clube da Esquina pode ser decepcionante para quem não conhece a história o suficiente. Não há museu físico, apenas uma placa na famosa esquina, que explica um pouco, mas não tudo. No entanto, se o visitante souber entender aquele como uma espécie de centro geográfico da criação, um “marco zero” referencial, a experiência será plena e talvez muito mais valiosa. Santa Tereza parou no tempo, ou tempo parou nela. Meio difícil concluir o ...

Quilombo Carcará e a estrada mágica de Potengi

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Perdida na imensidão da cidade quase desabitada (quando cheguei, pensei que todo mundo tinha fugido), aguardava instruções de meu destino. “Vamos na casa do mestre Antônio, e depois ao Quilombo Carcará”, informou meu guia honorário, piloto e Secretário de Cultura de Potengi, Jefferson Bob. O caminho entre o centro e a região do Carcará é todo feito em estrada de terra (carroçal), excetuando o pequeno pedaço de asfalto da CE-292, quando passamos pelas oficinas dos famosos ferreiros de Potengi e seu tuntum que vara a madrugada e vai até a metade do dia. Dali a uns três quilômetros comendo terra, depois de superar um lixão que dá à estrada a surreal impressão de ser uma plantação de sacolas plásticas, chegamos no Sassaré, sítio (região da zona rural, e não propriedade particular) de nome digno de conto de fadas e que abriga o mais mágico dos grupos se tradição popular que já vi, o Reisado de Caretas de Potengi. A casa de Mestre Antônio é uma atração turística. Tem até check-in no Facebook...

O Vidigal é...

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No Rio de Janeiro, entre o mar e a montanha, em meio a dois bairros de luxo – Leblon e São Conrado -, está um lugar mítico e desejado. Rejeitado e invejado. Desenvolvido e precário. Lá está o Vidigal. Com cerca de 50 mil moradores, segundo estimativa local, o morro é exemplo de luta, produção cultural e vida em comunidade. É uma pequena cidade do interior, dentro de uma das metrópoles mais desejadas do mundo, e que se orgulha de ter sido a primeira favela brasileira visitada por um Papa, especificamente, João Paulo II em 1980. Considerado a “Zona Sul das favelas”, a “nova Santa Teresa”, ou, simplesmente para os mais íntimos, “paraíso”, o Vidigal viveu turbulências históricas, como a luta dos moradores contra a remoção, em 1978, a entrada do tráfico nos anos 1980 – que entre 2004 e 2006 culminou com uma guerra entre facções -, a aparente tranquilidade da segunda metade dos anos 2000, até o processo de pacificação, iniciado em 2011, com a ocupação pelo Batalhão de Choque, e c...

Parque dos dinossauros

No Cariri repousam fósseis de 120 milhões de anos, o que o levou a sediar o primeiro Geopark das Américas.  Santana do Cariri pode ser considerada a capital brasileira dos dinossauros. É lá que está o maior depósito de fósseis de pterossauros (primos voadores dos dinossauros) do mundo. Eles viveram na região da Chapada do Araripe há cerca de 120 milhões anos, e assim como peixes e plantas, foram preservados pela alta salinidade do solo. Foi lá que os cientistas encontraram um exemplar que provavelmente deu origem ao temido Tiranossauro Rex. Mais baixinho e ágil, o bicho recebeu o nome de Santanaraptor placidus. Seu estado de conservação permitiu que até os vasos sanguíneos fossem examinados. No Museu de Paleontologia da cidade, é possível ver as famosas Pedra Cariri, ou pedras de peixe, que guardam exemplares pré-históricos perfeitos, como em um ovo. Há também fósseis de peixes em perfeito estado. Chamam a atenção os peixes que morreram na hora do almoço: com outros peixes na boca....

Uma Rocinha para estoniano ver

Nove horas do domingo. Três estonianos embarcam em uma van na porta do hotel em Copacabana. Acomodam-se ao lado de quatro franceses. A guia, que até o momento falava francês, informa que o passeio será em inglês. Cena convencional, o destino não muito: favelas da Rocinha e Vila Canoas, duas comunidades pobres e de realidades opostas. O Favela Tour, roteiro de três horas de duração, é realizado diariamente há 14 anos. Apesar de inusitado, não há conotação de safári no passeio. Quem faz o trajeto, alternativo, busca uma visão mais ampla sobre as desigualdades sociais da cidade. Em carro fechado, com orientação para evitar fotografar determinados locais e não usar binóculos, os turistas recebem informações sobre segurança e economia no Brasil. Divulgado em guias internacionais, o Favela Tour é apresentado em folhetos e páginas na internet em inglês. A procura parte essencialmente de estrangeiros. Segundo o proprietário, Marcelo Armstrong, os turistas daqui ainda têm preconceito em relação...

Tô me guardando pra quando o furacão chegar

Um belo dia, durante minha temporada em Florianópolis, acordei com a notícia de que um ciclone extratropical estava chegando no litoral. Havia uma discordância, que até hoje não foi resolvida, sobre se era mesmo um furacão. O certo é que ninguém botou uma fé. No Jornal do Almoço, a primeira chamada foi: “Procissão de Nosso Senhor dos Passos acontece amanhã”. Depois de um tempão: ”e, a seguir, no próximo bloco: furacão se aproxima da costa”. Para um jornal que tinha matérias do tipo: “baleia encalha na praia”, e “confira a chegada do Papai Noel no Beira Mar Shopping”, era uma super oportunidade, que não foi muito aproveitada. Pois bem, eu também sofra de falta de assunto, e liguei para São Paulo super empolgada: “pai, vai ter um furacão aqui!!!”. Qual foi minha decepção… Ele disse que já sabia… De noite, na hora marcada para a chegada do dito cujo, a ansiedade tomou conta e eu e uma amiga resolvemos ir para praia ver o furacão. Como se fossem fogos de artifício. Nos pontos de ônibus, ni...