O dia em que entendi o que é um quilombo

Na beirada da memória, está a palavra “feliz”: quando pronunciada, me remete à imagem da minha chegada ao Quilombo Carcará, em Potengi, Cariri cearense, no final de 2013. Se encontrei povo mais forte e bem resolvido que os sertanejos cearenses, estes eram os quilombolas de lá.
A boa recepção veio pela companhia: estava com Jefferson Bob, o maior defensor cultural que já vi uma cidade ter. Por ele soube que, até que não te entendam como uma ameaça, os quilombolas são arredios, desconfiados.

Há poucos anos tinham assumido sua condição de descendentes de escravos e lutavam pela demarcação da terra. Graças ao pai do Bob, que um dia viu na televisão um quilombo e se deu conta de que a população negra que ocupava o espaço mais pobre da região do Carcará – chamada de “favela” pelos vizinhos (muito pouco) mais abastados e de pele mais clara – era um quilombo.

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Por isso, não pense que foi fácil. Você não chega para um povo que viveu anos escondido, com medo, e diz: “agora acordem para sua condição, assumam que descendem de uma cultura rica”. O esconder-se não era físico, mas cultural. Deixaram a religião e arte no passado.
Foi um trabalho intenso de resgate: aos poucos, as mulheres mais novas reaprenderam a dançar o toré – influência dos índios kariri, dizimados como população ao longo dos anos. Elas mesmas desenharam a roupa das apresentações (que dona Bizunga veste na foto). Os homens voltaram a tocar pife, zabumba. Bob organizou com eles um espetáculo chamado Forró de Quilombo.
Até as eficientíssimas panelas de barro tinham ficado no passado. Ninguém lembrava mais de como fazer. Uma parceria com o ateliê Mão na Massa, de Missão Velha, reavivou a memória.

Criaram uma associação de moradores, a vida comunitária começou a se organizar. Reivindicam a terra – hoje arrendam a dos fazendeiros vizinhos para plantar – e para conquistarem esse direito, precisam se assumir como povo. E é o que começaram a fazer.
Tudo lindo. Até a Igreja Evangélica começar a entrar. E convencê-los de que zambumba era coisa do demônio. Que o melhor era ir ao culto e tocar violoncelo.
Quando estive lá, o líder comunitário – um cara muito articulado e inteligente, cujo nome me foge agora – tinha saído do grupo de zabumbeiros para “louvar ao senhor”.
Soube que cada vez mais gente foi convertida desde então, mas que felizmente o Incra continua o processo de demarcação.
Assim como estabeleceu-se que para ser indígena é preciso andar pelado, com arco e flecha, ainda resta a concepção frágil de que quilombolas seriam lindos negros capoeiras, com mulheres de turbante e coisa assim.
Melhor seria se recebessem tudo o que lhes é merecido: terra e direito ao resgate cultural.

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