O dia em que entendi o que é um quilombo
Na beirada da memória, está a palavra “feliz”: quando pronunciada, me remete à imagem da minha chegada ao Quilombo Carcará, em Potengi, Cariri cearense, no final de 2013. Se encontrei povo mais forte e bem resolvido que os sertanejos cearenses, estes eram os quilombolas de lá. A boa recepção veio pela companhia: estava com Jefferson Bob, o maior defensor cultural que já vi uma cidade ter. Por ele soube que, até que não te entendam como uma ameaça, os quilombolas são arredios, desconfiados. Há poucos anos tinham assumido sua condição de descendentes de escravos e lutavam pela demarcação da terra. Graças ao pai do Bob, que um dia viu na televisão um quilombo e se deu conta de que a população negra que ocupava o espaço mais pobre da região do Carcará – chamada de “favela” pelos vizinhos (muito pouco) mais abastados e de pele mais clara – era um quilombo. Por isso, não pense que foi fácil. Você não chega para um povo que viveu anos escondido, com medo, e diz: “agora acordem para sua condiç...