Cordisburgo de Guimarães Rosa



“Ele sabia – para isso qualquer um tinha chance – que Cordisburgo era o lugar mais formoso, devido ao ar e ao céu , e pelo arranjo que Deus caprichara em seus morros e suas vargens; por isso mesmo, lá de primeiro se chamara Vista Alegre … O céu não tinha fim, e as serras se estiraram, sob o esbaldado azul e enormes nuvens oceanosas.” Guimarães Rosa


Dizer que Cordisburgo é uma cidade apaixonante chega a ser redundância. Tente sair de lá sem coraçõezinhos orbitando em seu entorno, como nos gibis. Tente absorver o fato de que o brasão do município é um coração, que seu nome literalmente significa Lugar do Coração (cordis= coração, burgo=lugar), que o padroeiro do lugar era São José, mas ao encomendarem um santo para nova igreja, houve um engano: mandaram o Sagrado Coração de Jesus. Podiam pedir um novo, mas ficaram com esse, talvez porque há 100 anos aquele lugar já fosse muito amor.

Quando nasceu seu filho mais ilustre, João Guimarães Rosa, em 27 de junho de 1908, Cordisburgo ainda não era cidade. O antigo arraial de Vista Alegre, fundado a partir da fazenda Saco dos Cochos, virou um distrito de Sete Lagoas no ano de 1890. Depois, em 1911, passou a pertencer a Paraopeba, e só em 1938 foi emancipado.

Contam os moradores que ali, na praça da igreja matriz, está o centro geográfico do estado, hoje oficialmente localizado na cidade de Curvelo. Reclamam, os amáveis habitantes, que o governo achou Cordisburgo pequena demais para ostentar o título de coração de Minas Gerais. Veja só.

Na terra onde tudo é amor e ninguém faz marketing disso, o cemitério estampa uma enorme placa, em homenagem a Chico Luzia, personagem querido da cidade, que morreu do… coração, no meio de uma festa pública (dizem que ao ver sambar uma mulata do Sargentelli).
O mesmo sucedeu a Guimarães Rosa, que partiu após um infarto, aos 59 anos, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras.

O menino João
Se hoje a cidade tem entre 10 e 12 mil habitantes, umas três ruas principais e uma paz absoluta, imagine no começo do século passado, quando Guimarães nasceu por lá.
A família morava na rua da estação de trem e o pai dele, Flordualdo (conhecido como “Seu Flor”) tinha uma venda na parte da frente da residência (hoje lindamente reproduzida no Museu Casa de Guimarães Rosa).
O menino morou lá até os 9 anos, e depois foi estudar em Belo Horizonte.

Desde que se entendeu por gente, ficava embaixo do balcão para ler, e observava os vaqueiros que iam para comprar um pouco e conversar muito.
De BH ele foi para o mundo: virou diplomata, representou o Brasil em diversas embaixadas. Mas, como ele mesmo escreveu tempos depois, “o sertão é dentro da gente”: das vivências da infância, e depois como médico no interior, foi colhendo um modo de ver e viver que é muito peculiar àquela região até hoje. Os moradores, especialmente o de vida mais rural, vivem em um realismo fantástico, em que natureza e gente estão conectados de forma poética. São milhares de Guimarães Rosas.

Essa vivência resultou numa literatura única, que começou com Sagarana (que também é um bom jeito de começar a ler sua obra) e teve seu ápice em Grande Sertão: Veredas.
O fato é que, não a toa, Cordisburgo é uma Meca dos que estudam o escritor (e se reúnem anualmente, no mês de julho), durante a Semana Roseana. É a porta de entrada para entender o sertão mineiro.

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